domingo, 10 de fevereiro de 2013

Baquetas quebradas

-... o gato se enfiou no telhado e não quer mais sair de lá Srta.Cobain...
-É Fradenburg, Srta.Taylor...
-Oh, me desculpe, é Fradenburg novamente? Mas meu marido não consegue trabalhar e dormimos mau essa noite. Faça alguma coisa ou vamos ter que chamar a polícia, você sabe como é...
-Não se preocupe, eu vou falar com ele, tenho certeza que vai entender.
-Obrigado, realmente obrigado!
-Não tem de que...

Ela fechou a porta e suspirou. Era o quarto vizinho que vinha reclamar. Seu filho estava completamente fora de controle tocando aquela bateria que ganhou do avô todos os dias até as mãos doerem. Dessa vez havia começado a tocar de madrugada, e se nem nas outras casas conseguiam dormir, para ela havia sido impossível. Mas não conseguia punir o garoto, mau conseguia imaginar o que ele estava passando.

Se recusou a ir silencia-lo e Jason, que estava dormindo lá naquela noite, fez algumas coisas que ela não gostava de se lembrar.

Caminhou vacilante indo em direção ao quarto de Kurt. Suas costas doiam e seu braço estava rasgado de golpes de cinto. Ela precisava fazer o filho parar.

Ouviu o som de dentro do quarto. Em meio a golpes de bateria conseguiu escutar -We hurdle bodies that lay on the ground! - Bateu na porta, mas duvidava que seu filho houvesse percebido - and the russians fire another round! - tentou abrir a porta, mas ela foi barrada pela comoda, arrastada até ali para impedir alguém fizesse exatamente isso - We get so near yet so far away! - Empurrou e gritou pelo nome de Kurt, as lágrimas dominando-a. E de repente o som para.

-Que é? - A porta só abre uma fresta.
-Filho, os vizinhos estão pedindo... pra você abaixar o som...
-Dane-se os vizinhos.

Filho! - ela põe o braço para impedir a porta que já se fechando.
Kurt a encara.
-Eu te amo! - ela diz.
-Dane-se você! - e se prepara para fechar no braço dela.
-Mãe, o que é isso? - ele olha assombrado para os machucados.
-Não é nada... é só... não é nada.

Tira o braço do vão e se afasta correndo. Numa olhada de relance vê seu filho olhando incrédulo nos seus olhos.

A última coisa que escuta é um uivo, e os sons da bateria sendo destruída e jogada pelo quarto.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Paranóia

Ele bate a porta e ninguém atende.
Bate denovo. Nada
Está começando a pensar se sua mãe não se pendurou na sala quando a porta abre:

-Kurt. - Ela tem um olhar aflito.
Entra na casa procurando alguma coisa errada.
-Mãe o que...

Há um homem barbudo, fedendo a desodorante sentado no sofá.
-Esse é Jason meu filho. Ele é... bem. Ele é meu novo namorado.
-Mas que merda é...
-Filho...
-Tudo bem mãe, foda-se, não precisava substituir meu pai com duas semanas.
-Filho!
-Dane-se! - Sobe as escadas e bate a porta do quarto.

Mike havia esquecido uma garrafa de vodka meio cheia em seu quarto outro dia. Ele nunca havia bebido aquele tipo de coisa. Bebeu umas cervejas uma vez e cuspiu, pensando que tinha gosto de terra, nem imaginava qual era o gosto daquilo.

Não podia passar pela sala, de modo que pulou a janela, o que se arrependeu logo depois. Algo que parecia um martelo acertou sua coluna e doeu horrivelmente, mas se obrigou a não gritar.

Correu, antes que sua mãe percebesse sua ausência. Se mandou pelas ruas com vontade de vomitar de dor e remorso. Um cara daqueles com sua mãe. Um cara daqueles beijando sua mãe, como Polly o havia beijado outro dia. Nojento. Horrivel. Uma música lhe vem a cabeça e parece se encaixar estranhamente ao momento:

Finished with my woman 'cause she coudn't help me with my mind!
People think i'm insane because I am frowning all the time!

Tudo bem, talvez não o primeiro verso, mas o segundo sim. Pensou na escola. Pensou em como foi esquisito ver Dolly no outro dia de manhã e como ela ficou envergonhada e fingiu que não o conhecia. Pensou em como estava com raiva o tempo todo e seus colegas já tentavam evita-lo  todo custo. Dane-se.

All day long i think of things but nothing seems to satisfy!
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify!

A vizinha rega as plantas e vê o garoto de oito anos passar correndo com uma garrafa de vodka cantando alguma coisa pesada. - "Deve ter pensado que eu sou paranóico" - Pensou - "Talvez eu seja". Riu pra si mesmo.

Chega no parque. Arranca a tampa da garrafa e bebe de uma vez. Consegue chegar ao segundo gole antes de vomitar. Berra de ódio de sua mãe pelo que fez. - Vadia! Vadia! Vaca desgraçada! - termina novamente com um berro e limpa o gosto de vomito dando uma golada mais segura.

Can you help me!? - Berra a letra da música, chora e bebe denovo - Occupy my brain!? - Vadia!

Tenta se levantar mas não consegue. Tropeça e cai na beirada do lago, encharcando as calças. Dá murros no barro até que a lama ganhe filetes de sangue. Se arrasta pra fora e bebe mais.

Kurt perde as forças - I tell you to enjoy life - deita no chão - I wish I could - Fecha os olhos - but it's too late -
E dorme.

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