segunda-feira, 28 de maio de 2012

Boddah

O pequeno Kurt está deitado no carpete de seu quarto rabiscando um Aquamen perfeito enquanto assobia qualquer tipo de música. Olha pra frente e percebe um par de cadarços desamarrados, olha pra cima e vê um garoto de cabelos e olhos pretos com um sorriso estampado na face olhando pra ele.
- Olá Kurt.
- Boddah! A quanto tempo você não me visita! Sente-se comigo. Por onde tem andado?
- Você sabe, por ai.
- Deve ter ido se meter na floresta denovo - Kurt Ri - você adora aquele parque.
- E aquele lago - reflete o menino
- E o lago! Deus, quanto tempo eu não vou até lá?
- Muito tempo, tanto é que me esqueceu.
- Pare com isso, você sabe que eu não podia ter esquecido de você. Vem, me ajude a compor uma música como pedido de desculpas.

O outro menino ri, senta ao lado de Kurt e se apoia no armário.
-Que tipo de música vamos compor?
-Ah, vamos compor alguma coisa que nos deixe podre de ricos. Sobre o parque então, sim?
-Tudo bem, sobre o parque. Mas você sabe que não sou bom nessas coisas.
-Bobagem - E começa a assoviar um ritimo, varia-lo e tentar criar um sing novo, até que alcança o que deseja. - pronto, já temos nossa melodia Boddah.
- Não sei como você consegue essas coisas.

As árvores cheiram forte.
O cascalho dói meus pés.
Boddah mora lá, Boddah mora lá.

-Não pode por meu nome na música! Seus fãns nunca vão entender.
-Claro que vão, é só apresentar você pra eles.
-Quero ver você conseguir fazer isso.
-Fique quieto, deixa eu pensar.

Os pássaros cantam doce,
No lago eu vejo o céu,
Boddah mora lá, Boddah mora lá.

-Já disse que não sei como você faz isso?
-Fique quieto, deixa eu terminar!

Ah! Boddah é livre e é rei,
Vive como eu jamais viverei,
Queria morar com Boddah,
Boddah mora lá, Boddah mora lá.

-Você não pode fazer versos de três estrofes e depois construir um de quatro.
- Posso sim, sou eu que estou escrevendo, e fique quieto!

A terra está coberta de neve,
As árvores estão nuas,
Boddah está com frio, Boddah está com frio.

O vento vem do mar e é gelado,
Posso caminhar sobre o lago,
Boddah está com frio, Boddah está com frio.

Ah! Bodah é livre e é rei,
Vive como eu jamais viverei,
Queria morar com Boddah,
Boddah mora lá, Boddah está com frio.

A porta abre.

-Com quem você está conversando filho?
-Com Boddah, mãe! ele exclama, sorri e aponta para o outro menino.
A mulher olha para o vazio.
-Essa história de amigos imaginários denovo? Você já passou dessa fase. Desça rápido, sua comida vai esfriar.
O menino olha desiludido para o outro, que esboça um olhar triste. Boddah balança a cabeça.
- Adeus, Kurt.

E desaparece.


Vá para o quarto capítulo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Mickey & Lennon

- I've paid my dues - Um par de sapatos oxford desamarrados caminham nas pedras - time after time - a sirene da escola toca, mas ele já está fora - i've done my sentence - ele ri, por ter conseguido escapar da aula de educação física - but committed no crime - Ajeita os cabelos loiros quando escuta alguém gritar seu nome:
- Ei! Kurt!
Ele espera.
- Qual o seu problema? Se mandar daquele jeito da aula de educação física? A professora quase te percebe.
Kurt ri.
- Não esquenta, ninguém vai descobrir.
- Nesse seu estado? só se seus pais forem cegos.
Kurt olha as próprias roupas, completamente destroçadas.
-Vou dizer que jogamos futebol denovo e me colocaram como runner. Que tal aquela garota que disseram gostar de você? - Gargalhada.
O outro fica vermelho.
- É a Tracy, bobagens que esses idiotas ficam inventando por ai.
- Sei Mike, sei. Bom, até amanhã, brow.
- Ei Kurt, vai experimentar erva com agente no fim de semana?
Ele fecha a cara.
-Dessa vez não, talvez outro dia.
- Bom, então até mais.
- Até. -And bad mistakes.- Ele vira numa esquina e Mike segue em frente - -A've made a few - Vê uma viatura da polícia passar - I've had my share of sand - Mostra uma cara feia e a língua para o policial. - Kicked in my face - canta, vendo o policial mostrar o dedo do meio e uma cara fechada, ele ri - but i've come through - e gargalha.

Toca a campainha e o pai abre a porta.
- Já sei, você jogou de runner. Corra e se apronte pra irmos pra casa do seu avô. - O garoto ri e desaparece, o pai sorri.

Kurt pega seus desenhos e algumas folhas para mostrar pra avó. Toma um banho mau tomado e desce as escadas com a camisa do avesso. Sua mãe o faz vesti-la certo e penteia seus cabelos, sua irmã já está pronta. - Vamos? - Diz o pai.

Toca a campainha e o avô abre a porta. Com um largo sorriso.
Um pequeno Kurt se joga nos braços dele.
- Meu Deus do céu, garoto. Você não vai parar de crescer? - O menino mostra os dentes de leite e balança a cabeça.- Logo logo é seu aniversário de 8 anos ein? Deus, como esses garotos crescem rápido!
O velho o deixa escapar para dentro de casa, ajoelha e olha a irmã pequena, dá um grande abraço nela e a ataca com cosquinhas. Ela escapa também, no que ele se levanta.
- Façam favor, vocês dois são bem vindos a minha casa. Um chá Wendy?
Ela balança a cabeça e entra.

Kurt já está sentado no piano, e toca mais rápido do que deveria a bagatela Für Elise que aprendeu sozinho, ouvindo os discos. Sua avó sorri pra ele, se acomoda a seu lado e toca a introdução de uma outra música, já esperando seu pequeno netinho entrar com todas as notas no lugar certo, toda a casa para para ouvir o dueto.

Imagine there's no heaven,
its easy if you try.
No hell bellow us,
above us, only sky.


Imagine all the people,
living for today!


A mãe suspira, pra sempre apaixonada pela voz do seu pequeno mocinho. A mais nova se inspira nele. O pai senta-se a mesa e o avô trás o chá. Serve o pai e olha com gosto para o neto.
Terminam de tocar a música e são aplaudidos.
- Vai ser o próximo Frank Sinastra! - exclama o avô bebericando o chá quente.
Os adultos sentam-se a mesa e se acanham para começar a conversa que os trouxe ali. Wendy decide acabar aquilo de uma vez:
-Papai, nós viemos aqui...
-Vovô!
-Fale comigo pequeno Mr.Donald.
-Olhe meus desenhos vovô!
O velho pega alguns papéis com um sorriso, mas o sorriso desaparece ao ver o trabalho - você não desenhou, você copiou por cima. - e devolve o Mickey Mouse perfeito para o garoto de apenas cinco anos.
-Não copiei não! - Ele está furioso, a beira das lágrimas - espera, vou te mostrar.
Kurt corre, pega um papel e seu lápis, senta-se ao lado do avô na mesa e se põe a desenhar.

O velho apóia o braço nos ombros de Kurt, dá uma breve olhada nos traços que ele começa a rabiscar - Continue, Wendy.
-Não seria melhor mandar as crinças brincarem lá fora?
-Bobagem, o pequeno aqui está tão entretido com seus desenhos que duvido que vá prestar atenção na conversa. Fale minha filha, o que foi?
Ela suspira, bebe o chá e fecha os olhos, contendo as lágrimas.
- Nós...
-O que sua filha quer dizer, senhor Fradenburg, é que não vamos conseguir pagar o aluguel denovo.
-Se você trabalhasse mais, Don, não estariamos nesse estado!
- Olha essa? se eu trabalhasse mais?!
-Acalmem-se vocês dois - diz o velho - de quanto vocês precisam?
-Cinquenta dólares, papai.
-O que precisamos é que sua filha pare de fumar pra ganhar mais gorgetas.
-O que nós precisamos é que você consiga consertar mais carros ao invés de fumar o dia inteiro, querido.
-Olha essa? Está dizendo que eu não trabalho?
- Tanto quanto você diz que eu não trabalho.
-Parem com isso vocês dois! Ficam brigando por dinheiro já tem anos! Quando isso vai acabar?
Os dois se olham aflitos, estampado no rosto que já discutiram sobre como aquilo deveria acabar.
-Olha vovô!
Kurt exibe um desenho do Pato Donald eximiamente perfeito. O velho sorri e pega o desenho, dá um tapa nas costas de Kurt e o parabeniza. O garoto pula da cadeira e corre para dentro da casa.
-Tomem aqui, os cinquenta dólares, e não quero saber de vocês dois discutindo por dinheiro!
Wendy fala alguma coisa, Don retruca, e logo voltam a discutir. De começo baixo, até que o volume da briga aumenta. A pequena Kim começa a chorar, sua avó a pega no colo e começa a tentar acalma-la. Os dois discutem horrivelmente. Um barulho de bateria surge baixo e logo começa a disputar o som com a voz dos adultos, até que o homem perde os limites:
- Desliguem essa droga de rádio!
Mas o rádio está desligado. Uma confusão transpassa a todos na mesa enquanto a bateria não cessa. Eles se levantam e vão até o quarto onde Kurt, sentado na bateria do avô, toca de modo fenomenal.
-Vejam só, se ao invés de um Frank Sinastra não temos um John Bonham entre nós.

Mas o clima é tenso. O garoto toca enquanto chora. Derrepente para.

-Parem de gritar, por favor?

As baquetas caem no chão.


Vá para o terceiro capítulo.





terça-feira, 22 de maio de 2012

Pega-Pega

- Hey, Jude, don't make it bad... - Um arbusto é acertado por um pedaço de pau.- Take a sad song... - surge de trás das árvores um par de olhinhos azuis e um sorriso angelical - ...and make it better! - joga os cabelos loiros pra trás enquanto acerta outro arbusto - Remember, to let her into your heart... - Avista uma pequenina correndo em sua direção - Then you can start, - e dispara pela floresta - to make it better!

Atira seu galho nuns arbustos. Vira numa trilha e dispara por ela. Passa por umas castanheiras e desvia. salta um tronco, vira a direita e se enfia num buraco. Bufando.
Tenta controlar a respiração e ouvir. Em vão. Escuta de longe a vozinha gritando aflita:
- Kurt, cadê você Kurt? - e se enfia mais no buraco.
De repente os gritos param a os passos desaparecem. ele espera dez segundos de respiração suspensa. Nada. Vinte segundos. Nada. Ok, ela deve ter ido pra casa, será? provavelmente, ele pensa. Respira soltando o ar e se prepara pra sair do buraco quando uma criança de uns dois anos se joga em cima dele.
- Te peguei Kurt! - e solta uma gargalhada de garotinha. - Te peguei, te peguei, te peguei!
-Não é justo Kim, você fica cada dia mais esperta. - ele faz uma cara de bravo.
- Kim pegou o Kurt! Kim pegou o Kurt!
- Tá bom Kim, mas sabe quem vai te pegar agora? Rawr! - ela grita e corre, finge tentar agarra-la deixando que ela corra.
Sai do buraco e bate a terra da roupa. Tira alguma coisa do nariz e pega outro pedaço de pau no chão.-Don't be afraid. - conta um, dois, três e corre atrás da irmã - you were made to... - Corre por algum tempo até perceber que realmente perdeu ela. - go out and get her? Kim?! Onde você está Kim? -
Silêncio. 
Ele corre de um lado para o outro chamando e nada. Procura nos arbustos e atrás das árvores, repassando mentalmente as palavras de sua mãe para não sair de perto da irmã. E mais, se lembra dela dizendo para tomarem cuidado com o rio. - O rio! - Kurt corre com o máximo que suas pernas de cinco anos de idade permitem, em sua mente já repassando as coisas ruins que poderiam acontecer a sua irmã. Chega as margens bufando - Kim! Onde você está? - escuta uma risada baixa em algum lugar da direita - Kim? - caminha lentamente, pensa ter visto os cabelos loiros da irmã em algum lugar no rio, se aproxima, a terra não suporta o peso e ele é tragado pra dentro d'agua.

- Kurt! - a garotinha dispara de trás de um arbusto pra onde viu seu irmão desaparecer alguns segundos antes - Kurt! Para com isso Kurt! - para na beirada do rio e olha desconsolada a água abaixo - Kurt, fala comigo Kurt - e começa a chorar.
Algo sai da água e pula sobre ela, que cai gritando.
-Rawr! Te peguei Kim!
-Para Kurt, nunca mais faz isso - diz a menina rindo, limpando as lágrimas.
-Vamos pra casa. - decide, levantando-se todo molhado e sujo de terra.
Pensa que sua mãe provavelmente vai mata-lo, mas não importa. Vai cantando Beatles e corrigindo sua irmã quando erra a letra. Entra pela porta dos fundos para não ser pego e se depara com seu pai fumando de braços cruzados.

-Posso saber o que aconteceu?
Kurt olha pros olhos do pai, duros, pedindo auxílio. O pai cede.
-Tudo bem, tire a roupa aqui e corra pro chuveiro, antes que sua mãe te veja. Kim, se enfie debaixo das cobertas e finja que está dormindo.
Dá um tapa leve na bunda dos filhos enquanto eles correm pela casa.

Kurt entra no pequeno banheiro e se olha no espelho. Seu rosto está todo sujo de terra molhada, e ri. Lá fora escuta sua mãe gritar algo incompreensível. Espera que não seja com ele. Seu pai grita alguma coisa e parece haver uma discussão. Kurt liga o chuveiro e continua a cantar, fazendo os sons da briga desaparecerem. Toma seu banho tranquilo, e quando sai a briga parece ter acabado. Seu pai está novamente na cozinha e a mãe vê televisão na sala. Ele sobe e troca de roupa, desce e pergunta para o pai quando seus avós vem visita-lo:

-Amanhã meu filho, amanhã.

O dia transcorre sem maiores complicações, com Kurt desenhando na mesa da sala enquanto Kim tenta dançar algum tipo de balé, caindo no chão volta e meia, e sempre que está prestes a chorar, basta o pequeno Kurt dar uma gargalhada para que ela ria junto com ele.
-Tá bom, já chega, já pra cama os dois - Diz a mãe.

Beija a testa dos dois anjos e sai do quarto, apagando a luz. Na escuridão, um sussuro:
-Ei,Kimberly?
-Que foi?
-Vovô e vovó vem nos ver amanhã.
-Papai disse?
-Sim, disse outro dia que quando eles viessem iam trazer mais CDs pra gente.
Silêncio
-Kim? - a menina adormeceu.
Kurt rola na cama sem conseguir dormir. Pensa em John Lennon, se imagina sendo um astro de rock e tocando pra milhões de fãs, a musica Hey Jude volta a sua mente, e cantando e cantando o garoto adormece.

And anytime you fell the pain
Hey Jude, refrain,
Don't carry the world upon your  shoulders...

Vá para o segundo capítulo.