domingo, 24 de junho de 2012

Cigarros

-Quantos anos você tem garoto? - o velho por trás do balcão franze as sombrancelhas.
-São pro meu pai, me dê um hollywood.
-Dane-se, não vou vender pra você, dê o fora daqui.
-Deixe de ser idiota, eu tenho dinheiro, vê?
-Não quero saber, saia daqui antes que eu chame a polícia.

Kurt sai. atravessa a rua e tira do bolso um maço de Marlboro. Se diverte pensando como o velho não percebeu quando ele roubou.

Sentia vergonha de seus pais, era uma afronta pessoal a ele o que fizeram. Especialmente contra ele.
Como podiam estragar a vida de um garoto assim? Como? Não conseguia entender. Decidiu que iria para o velho estacionamento.
Havia perguntado na escola naquela manhã e viu vários de seus amigos dizendo que tinham pais divorciados. Alguns exibiam como uma medalha, mas a maioria falava baixo e triste. Era uma quantidade espantosa.
Alguma coisa aconteceu uns vinte anos atrás. Houve algum erro com a geração dos pais deles, já que era um absurdo tantas famílias terem se destruído assim. Ele queria ter dormido menos nas aulas de história, mas sabia que não teria mudado em nada. Só ensinavam tolices pra garotos da sua idade.
Tirou o maço do bolso e começou a abri-lo. Viu uma viatura na rua, enfiou os cigarros no bolso e cantou:

"Corn in the cups, corn in the cups, run! run! They want's to kill you!"

Mas não se divertia mais com aquilo como antes. Nem mostrando a lingua. Nem o dedo do meio. Nada. Não havia mais prazer em brincar na floresta nos fundos da casa sem sua irmã por perto. A vida havia perdido o gosto e ele estava surtando.
Quem foi o idiota que estragou a geração de seus pais? Era uma afronta contra ele. Queria quebrar tudo. Queria destruir tudo e depois se destruir.

Tirou um cigarro da caixa e pôs na boca - e então se lembrou - o isqueiro!

O isqueiro, merda. Não havia roubado o fogo. Não tinha como acender os cigarros. Jogou o maço num bueiro e ficou constrangido de ter roubado

- "Foda-se!" - pensou - "O velho idiota mereceu." - mas não havia merecido. Kurt não sabia o que pensar, por isso pegou uma lata de diet coke no chão e começou a enche-la de pedrinhas.

O que era o amor afinal? Kurt amava sua mãe, e achava que amava o pai, apesar de ele parecer mais como um amigo. Mas sim, amava Mike como um amigo, logo amava seu pai também. Mas aquele amor dos casamentos parecia uma coisa diferente que ele não conseguia entender.
Mas mesmo sem entender, por que alguém se casaria por amor pra depois se separar? Aquilo não fazia sentido. Duas pessoas organizarem uma vida juntos, criarem filhos juntos, e depois jogar merda no ventilador e estragar tudo.

-"Merda no ventilador" - pensou - "É isso que meus pais fizeram".

Chegou na garagem. Nunca havia conseguido acertar as latas de diet coke nas viaturas quando era mais novo, mas com sorte encontraria uma ali. Ele sempre havia tentado acerta-las em movimento afinal.
Rondou o lugar e não achou nenhuma. Jogou a lata em qualquer lugar e se sentou na relva. Olhou pro céu e tentou achar formas nas nuvens. Mas não, também não conseguia mais ver formas nas nuvens. Nada mais fazia sentido. Até as nuvens eles tiraram dele. Idiotas. Idiotas. Idiotas!

-Kurt? - Uma voz feminina chama.

-Dolly! - Era uma garota ruiva de sardas da escola, que está sempre se escondendo pelos cantos.

-Não sabia que você vinha aqui.
-Eu venho sempre aqui.

A menina senta-se ao lado dele.  Por enquanto ficam em silêncio. Ela percebe o que ele está fazendo e olha também pro céu.

-Olha, aquela ali, não parece um coelho?

Kurt fica irritado. Quem ela pensa que é pra vir e se enfiar perto dele? Começa a procurar alguma coisa realmente perigosa pra faze-la chorar e correr, mas, ele vê, percebe um rabo, uma orelha e alguma coisa que podia ser um par de patas.
-É, err, parece sim.

-Claro que é um coelho! - ela cai deitada no chão e ri. - mas o que você está fazendo aqui?
-Estou pensando.
-Pensando em que? - ela percebe que ficou intima demais de alguém que mau conhece, e parece ficar envergonhada.

-Em pais que se separam, em pessoas que acabam com nossa vida. Em merda no ventilador.
-Seus pais não moram mais juntos? - o garoto balança a cabeça.

-Uma amiga minha falou que ouviu dizer que os pais de um garoto de Seattle se separaram, ele ficou tão maluco que pulou da janela.
-Obrigado, você não sabe como isso me conforta.
-Não tem de que.

Kurt tenta segurar, mas solta uma gargalhada, tenta disfarçar e mexe nos cabelos virando o rosto de lado.

-E você? O que está fazendo aqui?
-Oh, meu pai está bêbado denovo.
-Mas a essa hora do dia?
-É, sabe, tem horas que eu queria que ele morresse.
O garoto balança a cabeça.
-Não diga isso, você não sabe como tem sorte de seus pais morarem juntos.
-Você não sabe como tem sorte do seu pai não estar bêbado o tempo todo.

Kurt fica revoltado. Aquela garota parece dedicada a estragar seu dia. Vira a cabeça pro outro lado e fica decidido a não falar mais com ela.

Ela parece igualmente emburrada, ou apenas não liga, já que os dois se concentram apenas em fitar as nuvens. Depois de perceber o coelho parece que tudo fica mais fácil. O menino percebe um lobo, um dragão e algo que podia ser um cavaleiro medieval templário correndo para trucidar o coelho...

-Kurt?
-Que é agor...

A menina o beija.

Separam-se e ela parece um tomate de tão vermelha. O menino pensa se não é exatamente como está parecendo agora.
-Eu... é... experimentar... eu queria... experimentar...
Levanta e sai correndo.
Ele olha a garota desaparecer nos arburstos. Está completamente confuso e indignado, quem é ela pra fazer esse tipo de coisa? Quem? Oque?

Ele definitivamente odeia garotas. E as ama.

O coelho é acertado pela lança do cavaleiro.
Kurt se levanta e vai pra casa.

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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Dias Ruins

-Você não pode fazer isso comigo!
-Já fiz. - exclamou baixo e com olhos tristes o pai. Deu um beijo na testa de Wendy, pegou Kim e pôs nos nos ombros, agarrou as três malas empilhadas e saiu de casa.
Kurt não conseguia chorar.

Não conseguia acreditar. Estava petrificado. Olhou para a porta fechando e o barulho ecoou em sua mente, continuado pelo choro alto de sua mãe.
- Eu te odeio Donald Cobain. Você não pode fazer isso comigo! - gritou, pegou um quadro na parede e jogou no chão. Quebrou um porta retrato da família com as mãos e sangue pingou no tapete branco. Caiu no chão berrando - Não pode! Não pode! Donald! Don! Volte aqui Don!

Mas ele se foi.

Kurt pegou a foto suja de sangue do chão e olhou-a. Guardou no bolso e saiu da casa pela porta dos fundos.
Caminhou pela floresta. Lembrou das brincadeiras que teve com Kim. Sua irmãnzinha que ele tanto amava e agora não ia ver mais. Caminhou inerte até o rio e pensou em se jogar nele. Mas não tinha forças pra fazer sequer isso. -"Kurt, cadê você Kurt"? a voz doce da pequena ecoava em sua mente. "Nunca mais." Ele pensou. "Nunca mais".

Não soube como, mas se viu vagando pela rua. Caminhava no asfalto e havia tirado a foto do bolso. Olhava pra ela e tentava encontrar algum lugar dentro de si mesmo para se proteger. Eles não podiam fazer aquilo com ele. Não podiam. Era errado. Por que as pessoas casam? Por que as pessoas  se amam se é para terminar tudo daquele jeito? Ele jamais ia amar, decidiu.

Vagava pelas ruas. Chutava latas e ignorava as pessoas. Não se importou quando uma viatura da policia passou. - Porque? - falou baixo pra si mesmo - Porque?

Foi pra casa de Mike, bateu na porta e esperou. Estava prestes a ir embora quando a mãe dele abriu a porta. Não prestou atenção no que ela disse e alguns momentos depois o amigo estava na sua frente.

-Que foi Kurt?
-Ainda tem aqueles baseados?
-Fale baixo! Quer que a casa inteira escute? Me espere nos fundos está bem?

Foram até os bancos do parque, escolheram um lugar próximo ao lago. Mike bolava com habilidade enquanto pensava em como perguntar ao amigo o que acontecera.

Yesterday.

- Oi?

All my troubles seemed so far away. - ele canta baixo
Now it looks as through they're here to stay.
Oh, i believe in yesterday.

 Mike termina de bolar. Saca o isqueiro e acende, dando um primeiro trago.

Suddenly,

-Kurt, o que aconteceu? - estende o baseado para o outro, que pega e traga, mas não responde.

I'm not half the man i used to be.
There's a shadow hanging over me.
- O que você está falando? não consigo te escutar.

Oh, yesterday came suddenly.

Why 'he' had go I don't know.
'He' wouldn't say.

-Eu odeio todo mundo Mike.

I said something wrong now I long.
for yesterday.
Yesterday

O garoto traga profundamente e engasga. Passa o baseado.

Love was such an easy game to play.
Now i need a place to hide away.
Oh, i believe in yesterday!

Kurt ri enquanto canta. Suas mãos apertam o banco com mais força do que deveria.

Why 'he' had to go I don't know,
'He' wouldn't say!
I said, something wrong now I long!

Kurt gargalha.

For Yesterday!

- Está escurecendo brow, vamos pra casa? Para com isso Kurt, é sério.
Silêncio.
-Kurt?

Yesterday - ele recomeça baixo

Love was such an easy game to play - não consegue segurar, mas se esforça, precisa terminar a música - Now i need a place to hide away - seus olhos enchem d'água, suas mãos tremem vermelhas agarrando o banco - Oh, I believe...
Não consegue mais segurar. Cai de joelhos no chão e chora. 
Não tem mais uma família afinal.

Uma coruja pia e o dia se foi.

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domingo, 3 de junho de 2012

Presente de Aniversário

Alguém pôs o dedo no bolo, mas não era problema. As letras "Feliz aniversário!" ainda eram bem visíveis por cima do glacê.
Kurt limpou o dedo grudando de açucar na roupa de sua tia-avó quando veio lhe dar os parabéns.
-Oito anos Kurt! Se continuar assim vai acabar me passando ein!
Espero que não, vovó.
Ele estava feliz. Mas que garoto não fica feliz no dia do próprio aniversário? Mas de toda forma estava interessado especialmente em presentes.
Josh havia dado algumas bolinhas de gude e John um peão novo. Lewis uma bola de futebol velha e as garotas - tudo bem, ele não queria que elas tivessem vindo - juntaram o dinheiro e compraram pra ele uma camisa do John Lennon, até agora o melhor lucro do dia.
Mike, seu melhor amigo, chegou com os olhos puxados e vermelhos, rindo atoa e falou que havia esquecido o presente, e que era para Kurt lembra-lo depois. Ele queria ficar bravo com o amigo, mas não conseguia. Amigos são sempre assim.

-Veja só se não é o melhor neto de todos!
-Vovô! - E se atirou sobre os braços do velho.
-Calma rapaz, calma! Quer saber qual o seu presente? - O menino viu a avó chegando com um embrulho gigantesco nos braços - Calma pequeno Kurt! Você não precisa matar seu avô tentando chegar até lá!
O menino correu até a avó e mau deixou que ela atravessasse a cerca. Deu um beijo rápido nela e um agradecimento corrido e se pôs a desembrulhar o pacote.
Seu avô tinha senso de humor até mesmo para presentes, já que havia embrulhado tudo em sete papéis para atormentar a criança. Uma fita aqui. Um nó aqui. Desembrulha. Outra fita, outro nó. Desembrulha. E outro, e outro, outro, outro...
E de dentro saiu nada menos que uma bateria do Mickey Mouse.

Kurt parou. Faltou-lhe ar nos pulmões. Mas só por alguns segundos, claro. Dai cinco minutos a bateria estava completamente montada acima dos degraus que levavam para dentro da casa, com todos os seus amigos e família reunidos a sua frente. Quem sabia do gosto do menino pela arte esperava calado. Um ou outro ria, e as meninas cochichavam, como sempre. Kurt pensou se era só isso que elas conseguiam fazer.

Um silêncio pairou no ar em dado momento. Um fôlego, e ele soube que era o momento pra começar.

Buddy you're a boy make a big noise,
Playin' in the street gonna be a big man some day.
You got mud on your face,
You big disgrace
Kickin' your can all over the place

Sing it!

Qualquer um que entendesse de música saberia o quanto é difícil cantar e tocar bateria simultaneamente. O que, claro, o pequeno Kurt ali fazia parecer algo completamente normal. Completando ainda, vez ou outra a música do Queen com seu próprio solo.

We will, we will, rock you!
We will, we will, rock you!

Buddy you're a young man, hard man,
Shoutin in the street,
Gonna take on the world some day.
You god blood on your face.
You big disgrace!
Wavin' your banner all over the place!

Sing it!
A maioria dos garotos conhecia a sigle, e acompanharam o refrão juntos do pequeno Kurt. Seu tio entrou na casa e trouxe um amplificador e uma velha guitarra, ligando-os a tempo de fazer o solo. O menino ficou completamente maravilhado com o instrumento. E surpreso também. Sabia que seu tio tocava, e talvez soubesse que seu avô tinha uma daquelas, mas nunca teria ligado as duas coisas.
A música chega ao fim, seus amigos gritam e aplaudem, as meninas riem e fofocam -como sempre - E sua mãe corta o show com um anúncio certeiro.

-O parabéns crianças!

Apesar de ter roubado seu momento de fama, o pequeno Kurt logo se recompõe quando descobre seu tio tocando happy birthday com a guitarra distorcida. Ele degusta cada nota desafinada, cada vibração da caixa que fazem seu coração tremer.
- Filho, aqui está, seu presente. - diz a mãe.
Os amigos do garoto atacam o bolo, ele suspira mas se felicida abrindo seu pacote, que é obviamente um disco de vinil.

Album High Voltage, AC/DC.

Nada menos que o sonho de seus sonhos. Havia escutado todas aquelas músicas antes, claro, na casa de Mike, mas ter o disco... ter o disco era simplesmente inacreditável.

-Posso saber de onde saiu o dinheiro para comprar esse presente? - A voz do pai mostra que está prestes a dar um ataque.
-Das minhas economias, Don
-Das suas economias Wendy?! Suas economias? - e dá uma risada que bem poderia ser um grito.
E os dois começam a discutir. A festa para com garotos sujos de glacê ouvindo a troca de palavras do casal. O Avô tenta interferir, mas não consegue.
- Pra mim já é demais, cansei. Boa noite pra vocês.
O pai de Kurt sai da casa e vai embora.

Está ai meu presente de aniversário - pensa kurt - esse é meu maldito presente de aniversário.

E joga o disco na grama.


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