sexta-feira, 7 de março de 2014

Montesano

(...)Dancing in the sun a new born in the light, say goodbye to gravity and say goodbye to death. Hello to eternity and live for every breath.
Your time will come.(...)

Seu pai chega de carro com o som no máximo tocando o forte Iron Maiden. O braço pra fora da janela segurando um cigarro e dá um sorriso pro filho.
- Senti saudades meu garoto.
Desce do carro e Kurt não diz nada. Ajuda-o a colocar as malas no carro. Sem se despedir da mãe vão embora de Aberdeen.

-Trouxe os papéis da matricula? - Kurt balança a cabeça - Muito bem, vamos amanhã te colocar numa nova escola. Você vai fazer bons amigos e vai ter uma boa vida, nada haver com esse pesadelo.
O garoto tenta sorrir, mas não dá. Sai apenas uma expressão desgastada. Não dormiu naquela noite com medo do namorado da mãe. Com medo de pesadelos, com medo do futuro. Com medo de muitas coisas.

Escutaram o fim do disco do Iron Maiden e estavam curtindo um começo de Led Zeppelin quando chegaram a Montesano. O pai morava num trailler alugado por cinco dólares o dia, isolado das outras casas uns quinhentos metros. Um córrego passava logo atrás, com algumas árvores. Lembrava-o da sua antiga casa em Aberdeen - percebeu - mas logo tirou isso da cabeça, pois fazia seu coração doer. Lembrava-lhe sua irmãnzinha, mas ela havia sido mandada para morar com a mãe. Pensavam que isso talvez fizesse a mãe tomar juízo e se cuidar.

Apenas deixam as malas no trailer e partem pra cidade. Param numa lanchonete e comem dois enormes sanduíches. O pai de Kurt conta piadas e é extremamente engraçado. Era essa personalidade forte e divertida que havia cativado sua mãe, percebeu o menino resoluto, mas não podia deixar de rir. Foram depois num parque de diversões, comeram algodão doce e desceram sete vezes na montanha-russa antes que começasse a escurecer. Voltaram pra casa ao som de Highway the Hell. Kurt limpou os pés na soleira da porta.

-Pai, me promete uma coisa?
-Qualquer coisa meu filho. - E sorri.
-Me prometa que você nunca mais vai ter uma mulher.
Donald fecha a expressão, olha pro filho analisando-o. Dá um beijo na testa e entra em casa.

Sem responder.


Pesadelo

Kurt chuta as pernas dele, dá um soco na barriga e o novo namorado da mãe desaba no chão.
- Filho da puta! Por que você bateu na minha mãe!?
- Oh! Eu não sabia que você era tão forte! Por favor não faça isso!
Mas o garoto não se importa. Espanca o homem mais velho e quebra todos os ossos do corpo dele. Há gritos. Gritos, gritos e mais  gritos. Berros. Berros que vão se tornando cada vez mais reais. Impossivelmente reais.
- O que voce fez?! - O homem grita. Mas Kurt continua espancando-o - O que você fez!? - e Kurt chuta, soca e até morde e arranca uma orelha. Os berros crescem e vão se tornando femininos, e para seu desespero, Kurt descobre-se batendo na sua mãe. - "O que você fez?!" Ela grita e chora pra ele caída no chão. Kurt para atônito e acorda.

- O que você fez?! - O som vem do andar de baixo. O garoto pula da cama e corre. Desce as escadas voando e lá está o namorado dela com uma garrafa de whisky na mão gritando. Sua mãe está deitada no chão chorando. Seu braço desfigurado numa direção estranha. O garoto berra e corre pra bater no homem, toma um tapa na cara e cai no chão atordoado.

-O que você fez seu desgraçado!
-Isso é pra você aprender a respeitar os homens e saber o seu lugar, mulher. - E toma outro gole do Whisky.
Os vizinhos escutam e chamam os policiais, que chegam e levam sua mãe para o hospital. O monstro fica em casa e Kurt a acompanha.
Os médicos a atendem rápido. Num minuto o braço está no lugar e sua mãe está deitada acabada. Passa as mãos na cabeça dele e parece que vai dizer alguma coisa, mas desmaia.

-Você tem pai garoto?
Um homem de bata branca e meio careca olha-o com uma expressão de compreensão.
-Tenho sim, que é?
-Sabe como posso falar com ele?
Kurt diz os números, o homem pede um instante e sai. O garoto senta-se no banco e fica consternado. Sua mãe está ali do lado, desacordada e cheia de hematomas. Vai matar aquele filho da puta, jurou. Vai matar aquele filho da puta duas vezes. Vai passar uma faca no pescoço dele enquanto ele dorme. Aquele monstro não vai sobreviver mais um dia...
-Sr.Cobain?
Não respondeu, ninguém nunca o havia chamado daquela forma antes.
-Sr.Cobain? Olhou com olhos frios pro homem de bata que estava começando a irrita-lo.
-Que foi?
-Seu pai disse que está vindo pra cá, vai busca-lo e levar você pra morar com ele, tenho certeza que tudo dará certo. Relaxe, o pior do pesadelo passou.

O pior do pesadelo passou. Duvidava. Achava que o pesadelo estava só pra começar.


Saiu do hospital, sacou um cigarro e fumou.

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Pedras

There's a lady who's sure - "plôc!" a pedra cai e afunda sem quicar, de algum modo estranho isso consegue declinar ainda mais o já vigente mau humor de Kurt - All that glitters is gold. And she's buying the stairway to heaven. Toma mais um gole de cerveja.
Depois da primeira vez, sua mãe vinha aparecendo constantemente com machucados. Ele nunca via o novo namorado espanca-la, mas não era preciso ser um gênio para perceber isso. When she gets there she knows if the stores are all closed. With a world she can get what she came for. Desgraçado filho da puta! Estava desesperado. O que podia fazer?

- Tá pensando em que?
- Que eu não devia ter nascido. - vocifera, e joga outra pedra.

Mike vinha sendo um bom amigo, um ótimo amigo. Não tinha dado um presente no aniversário, mas o havia presenteado imensamente saindo com ele e suportando os silêncios e o mau humor. Vinham fugindo pro lago e tomado cerveja, fumado maconha e ficado doidões cada vez mais frequentemente. Os machucados de sua mãe vinham ficando piores, e as fugas - Kurt percebeu - vinham ficando mais comuns na mesma medida.

And she's buying a stairway to heaven!

Jogou outra pedra no lago. Ao olha-la quicar, percebeu duas criaturinhas caminhando juntas do outro lado.

- Ei Mike, não é sua namorada?
- Não é sua namorada, Kurt?

Era exatamente isso. As duas vinham juntas conversando tão intensamente que mau percebiam os dois garotos. Ficaram calados e deixaram-nas se aproximar. Outro gole de cerveja. "Foda-se", pensou Kurt, e jogou outra pedra.

As garotas viram, abismadas e percebem que eram exatamente os dois. Num segundo estavam correndo e fugindo dali.

- Hahaha! Olha só pra elas! Parecem dois pavões.
- Dolly me beijou outro dia.
- Sério?! Por que você não me conta uma coisa dessas?
-Não achei que realmente tivesse importância. Deixa pra lá.
-Kurt tá apaixonado!
-Vai se foder Mike.

E bebe mais um gole. Garotas. Amor. A pouco tempo atrás descobrir a vida e se divertir era tão simples, e tudo vinha ficando tão complicado. Seus pais destruíram sua vida, sua mãe arranjou aquele desgraçado e apanhava todos os dias. Queria matar ele, mas com aquela idade? Como conseguiria sobreviver sabendo que matou alguém? Talvez, pensou, talvez devesse dar o fora e ir morar com o pai em Montesano.

Oh it makes me wonder, oh, it makes me wonder!

E outra pedra afundou no rio.

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Baquetas quebradas

-... o gato se enfiou no telhado e não quer mais sair de lá Srta.Cobain...
-É Fradenburg, Srta.Taylor...
-Oh, me desculpe, é Fradenburg novamente? Mas meu marido não consegue trabalhar e dormimos mau essa noite. Faça alguma coisa ou vamos ter que chamar a polícia, você sabe como é...
-Não se preocupe, eu vou falar com ele, tenho certeza que vai entender.
-Obrigado, realmente obrigado!
-Não tem de que...

Ela fechou a porta e suspirou. Era o quarto vizinho que vinha reclamar. Seu filho estava completamente fora de controle tocando aquela bateria que ganhou do avô todos os dias até as mãos doerem. Dessa vez havia começado a tocar de madrugada, e se nem nas outras casas conseguiam dormir, para ela havia sido impossível. Mas não conseguia punir o garoto, mau conseguia imaginar o que ele estava passando.

Se recusou a ir silencia-lo e Jason, que estava dormindo lá naquela noite, fez algumas coisas que ela não gostava de se lembrar.

Caminhou vacilante indo em direção ao quarto de Kurt. Suas costas doiam e seu braço estava rasgado de golpes de cinto. Ela precisava fazer o filho parar.

Ouviu o som de dentro do quarto. Em meio a golpes de bateria conseguiu escutar -We hurdle bodies that lay on the ground! - Bateu na porta, mas duvidava que seu filho houvesse percebido - and the russians fire another round! - tentou abrir a porta, mas ela foi barrada pela comoda, arrastada até ali para impedir alguém fizesse exatamente isso - We get so near yet so far away! - Empurrou e gritou pelo nome de Kurt, as lágrimas dominando-a. E de repente o som para.

-Que é? - A porta só abre uma fresta.
-Filho, os vizinhos estão pedindo... pra você abaixar o som...
-Dane-se os vizinhos.

Filho! - ela põe o braço para impedir a porta que já se fechando.
Kurt a encara.
-Eu te amo! - ela diz.
-Dane-se você! - e se prepara para fechar no braço dela.
-Mãe, o que é isso? - ele olha assombrado para os machucados.
-Não é nada... é só... não é nada.

Tira o braço do vão e se afasta correndo. Numa olhada de relance vê seu filho olhando incrédulo nos seus olhos.

A última coisa que escuta é um uivo, e os sons da bateria sendo destruída e jogada pelo quarto.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Paranóia

Ele bate a porta e ninguém atende.
Bate denovo. Nada
Está começando a pensar se sua mãe não se pendurou na sala quando a porta abre:

-Kurt. - Ela tem um olhar aflito.
Entra na casa procurando alguma coisa errada.
-Mãe o que...

Há um homem barbudo, fedendo a desodorante sentado no sofá.
-Esse é Jason meu filho. Ele é... bem. Ele é meu novo namorado.
-Mas que merda é...
-Filho...
-Tudo bem mãe, foda-se, não precisava substituir meu pai com duas semanas.
-Filho!
-Dane-se! - Sobe as escadas e bate a porta do quarto.

Mike havia esquecido uma garrafa de vodka meio cheia em seu quarto outro dia. Ele nunca havia bebido aquele tipo de coisa. Bebeu umas cervejas uma vez e cuspiu, pensando que tinha gosto de terra, nem imaginava qual era o gosto daquilo.

Não podia passar pela sala, de modo que pulou a janela, o que se arrependeu logo depois. Algo que parecia um martelo acertou sua coluna e doeu horrivelmente, mas se obrigou a não gritar.

Correu, antes que sua mãe percebesse sua ausência. Se mandou pelas ruas com vontade de vomitar de dor e remorso. Um cara daqueles com sua mãe. Um cara daqueles beijando sua mãe, como Polly o havia beijado outro dia. Nojento. Horrivel. Uma música lhe vem a cabeça e parece se encaixar estranhamente ao momento:

Finished with my woman 'cause she coudn't help me with my mind!
People think i'm insane because I am frowning all the time!

Tudo bem, talvez não o primeiro verso, mas o segundo sim. Pensou na escola. Pensou em como foi esquisito ver Dolly no outro dia de manhã e como ela ficou envergonhada e fingiu que não o conhecia. Pensou em como estava com raiva o tempo todo e seus colegas já tentavam evita-lo  todo custo. Dane-se.

All day long i think of things but nothing seems to satisfy!
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify!

A vizinha rega as plantas e vê o garoto de oito anos passar correndo com uma garrafa de vodka cantando alguma coisa pesada. - "Deve ter pensado que eu sou paranóico" - Pensou - "Talvez eu seja". Riu pra si mesmo.

Chega no parque. Arranca a tampa da garrafa e bebe de uma vez. Consegue chegar ao segundo gole antes de vomitar. Berra de ódio de sua mãe pelo que fez. - Vadia! Vadia! Vaca desgraçada! - termina novamente com um berro e limpa o gosto de vomito dando uma golada mais segura.

Can you help me!? - Berra a letra da música, chora e bebe denovo - Occupy my brain!? - Vadia!

Tenta se levantar mas não consegue. Tropeça e cai na beirada do lago, encharcando as calças. Dá murros no barro até que a lama ganhe filetes de sangue. Se arrasta pra fora e bebe mais.

Kurt perde as forças - I tell you to enjoy life - deita no chão - I wish I could - Fecha os olhos - but it's too late -
E dorme.

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domingo, 24 de junho de 2012

Cigarros

-Quantos anos você tem garoto? - o velho por trás do balcão franze as sombrancelhas.
-São pro meu pai, me dê um hollywood.
-Dane-se, não vou vender pra você, dê o fora daqui.
-Deixe de ser idiota, eu tenho dinheiro, vê?
-Não quero saber, saia daqui antes que eu chame a polícia.

Kurt sai. atravessa a rua e tira do bolso um maço de Marlboro. Se diverte pensando como o velho não percebeu quando ele roubou.

Sentia vergonha de seus pais, era uma afronta pessoal a ele o que fizeram. Especialmente contra ele.
Como podiam estragar a vida de um garoto assim? Como? Não conseguia entender. Decidiu que iria para o velho estacionamento.
Havia perguntado na escola naquela manhã e viu vários de seus amigos dizendo que tinham pais divorciados. Alguns exibiam como uma medalha, mas a maioria falava baixo e triste. Era uma quantidade espantosa.
Alguma coisa aconteceu uns vinte anos atrás. Houve algum erro com a geração dos pais deles, já que era um absurdo tantas famílias terem se destruído assim. Ele queria ter dormido menos nas aulas de história, mas sabia que não teria mudado em nada. Só ensinavam tolices pra garotos da sua idade.
Tirou o maço do bolso e começou a abri-lo. Viu uma viatura na rua, enfiou os cigarros no bolso e cantou:

"Corn in the cups, corn in the cups, run! run! They want's to kill you!"

Mas não se divertia mais com aquilo como antes. Nem mostrando a lingua. Nem o dedo do meio. Nada. Não havia mais prazer em brincar na floresta nos fundos da casa sem sua irmã por perto. A vida havia perdido o gosto e ele estava surtando.
Quem foi o idiota que estragou a geração de seus pais? Era uma afronta contra ele. Queria quebrar tudo. Queria destruir tudo e depois se destruir.

Tirou um cigarro da caixa e pôs na boca - e então se lembrou - o isqueiro!

O isqueiro, merda. Não havia roubado o fogo. Não tinha como acender os cigarros. Jogou o maço num bueiro e ficou constrangido de ter roubado

- "Foda-se!" - pensou - "O velho idiota mereceu." - mas não havia merecido. Kurt não sabia o que pensar, por isso pegou uma lata de diet coke no chão e começou a enche-la de pedrinhas.

O que era o amor afinal? Kurt amava sua mãe, e achava que amava o pai, apesar de ele parecer mais como um amigo. Mas sim, amava Mike como um amigo, logo amava seu pai também. Mas aquele amor dos casamentos parecia uma coisa diferente que ele não conseguia entender.
Mas mesmo sem entender, por que alguém se casaria por amor pra depois se separar? Aquilo não fazia sentido. Duas pessoas organizarem uma vida juntos, criarem filhos juntos, e depois jogar merda no ventilador e estragar tudo.

-"Merda no ventilador" - pensou - "É isso que meus pais fizeram".

Chegou na garagem. Nunca havia conseguido acertar as latas de diet coke nas viaturas quando era mais novo, mas com sorte encontraria uma ali. Ele sempre havia tentado acerta-las em movimento afinal.
Rondou o lugar e não achou nenhuma. Jogou a lata em qualquer lugar e se sentou na relva. Olhou pro céu e tentou achar formas nas nuvens. Mas não, também não conseguia mais ver formas nas nuvens. Nada mais fazia sentido. Até as nuvens eles tiraram dele. Idiotas. Idiotas. Idiotas!

-Kurt? - Uma voz feminina chama.

-Dolly! - Era uma garota ruiva de sardas da escola, que está sempre se escondendo pelos cantos.

-Não sabia que você vinha aqui.
-Eu venho sempre aqui.

A menina senta-se ao lado dele.  Por enquanto ficam em silêncio. Ela percebe o que ele está fazendo e olha também pro céu.

-Olha, aquela ali, não parece um coelho?

Kurt fica irritado. Quem ela pensa que é pra vir e se enfiar perto dele? Começa a procurar alguma coisa realmente perigosa pra faze-la chorar e correr, mas, ele vê, percebe um rabo, uma orelha e alguma coisa que podia ser um par de patas.
-É, err, parece sim.

-Claro que é um coelho! - ela cai deitada no chão e ri. - mas o que você está fazendo aqui?
-Estou pensando.
-Pensando em que? - ela percebe que ficou intima demais de alguém que mau conhece, e parece ficar envergonhada.

-Em pais que se separam, em pessoas que acabam com nossa vida. Em merda no ventilador.
-Seus pais não moram mais juntos? - o garoto balança a cabeça.

-Uma amiga minha falou que ouviu dizer que os pais de um garoto de Seattle se separaram, ele ficou tão maluco que pulou da janela.
-Obrigado, você não sabe como isso me conforta.
-Não tem de que.

Kurt tenta segurar, mas solta uma gargalhada, tenta disfarçar e mexe nos cabelos virando o rosto de lado.

-E você? O que está fazendo aqui?
-Oh, meu pai está bêbado denovo.
-Mas a essa hora do dia?
-É, sabe, tem horas que eu queria que ele morresse.
O garoto balança a cabeça.
-Não diga isso, você não sabe como tem sorte de seus pais morarem juntos.
-Você não sabe como tem sorte do seu pai não estar bêbado o tempo todo.

Kurt fica revoltado. Aquela garota parece dedicada a estragar seu dia. Vira a cabeça pro outro lado e fica decidido a não falar mais com ela.

Ela parece igualmente emburrada, ou apenas não liga, já que os dois se concentram apenas em fitar as nuvens. Depois de perceber o coelho parece que tudo fica mais fácil. O menino percebe um lobo, um dragão e algo que podia ser um cavaleiro medieval templário correndo para trucidar o coelho...

-Kurt?
-Que é agor...

A menina o beija.

Separam-se e ela parece um tomate de tão vermelha. O menino pensa se não é exatamente como está parecendo agora.
-Eu... é... experimentar... eu queria... experimentar...
Levanta e sai correndo.
Ele olha a garota desaparecer nos arburstos. Está completamente confuso e indignado, quem é ela pra fazer esse tipo de coisa? Quem? Oque?

Ele definitivamente odeia garotas. E as ama.

O coelho é acertado pela lança do cavaleiro.
Kurt se levanta e vai pra casa.

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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Dias Ruins

-Você não pode fazer isso comigo!
-Já fiz. - exclamou baixo e com olhos tristes o pai. Deu um beijo na testa de Wendy, pegou Kim e pôs nos nos ombros, agarrou as três malas empilhadas e saiu de casa.
Kurt não conseguia chorar.

Não conseguia acreditar. Estava petrificado. Olhou para a porta fechando e o barulho ecoou em sua mente, continuado pelo choro alto de sua mãe.
- Eu te odeio Donald Cobain. Você não pode fazer isso comigo! - gritou, pegou um quadro na parede e jogou no chão. Quebrou um porta retrato da família com as mãos e sangue pingou no tapete branco. Caiu no chão berrando - Não pode! Não pode! Donald! Don! Volte aqui Don!

Mas ele se foi.

Kurt pegou a foto suja de sangue do chão e olhou-a. Guardou no bolso e saiu da casa pela porta dos fundos.
Caminhou pela floresta. Lembrou das brincadeiras que teve com Kim. Sua irmãnzinha que ele tanto amava e agora não ia ver mais. Caminhou inerte até o rio e pensou em se jogar nele. Mas não tinha forças pra fazer sequer isso. -"Kurt, cadê você Kurt"? a voz doce da pequena ecoava em sua mente. "Nunca mais." Ele pensou. "Nunca mais".

Não soube como, mas se viu vagando pela rua. Caminhava no asfalto e havia tirado a foto do bolso. Olhava pra ela e tentava encontrar algum lugar dentro de si mesmo para se proteger. Eles não podiam fazer aquilo com ele. Não podiam. Era errado. Por que as pessoas casam? Por que as pessoas  se amam se é para terminar tudo daquele jeito? Ele jamais ia amar, decidiu.

Vagava pelas ruas. Chutava latas e ignorava as pessoas. Não se importou quando uma viatura da policia passou. - Porque? - falou baixo pra si mesmo - Porque?

Foi pra casa de Mike, bateu na porta e esperou. Estava prestes a ir embora quando a mãe dele abriu a porta. Não prestou atenção no que ela disse e alguns momentos depois o amigo estava na sua frente.

-Que foi Kurt?
-Ainda tem aqueles baseados?
-Fale baixo! Quer que a casa inteira escute? Me espere nos fundos está bem?

Foram até os bancos do parque, escolheram um lugar próximo ao lago. Mike bolava com habilidade enquanto pensava em como perguntar ao amigo o que acontecera.

Yesterday.

- Oi?

All my troubles seemed so far away. - ele canta baixo
Now it looks as through they're here to stay.
Oh, i believe in yesterday.

 Mike termina de bolar. Saca o isqueiro e acende, dando um primeiro trago.

Suddenly,

-Kurt, o que aconteceu? - estende o baseado para o outro, que pega e traga, mas não responde.

I'm not half the man i used to be.
There's a shadow hanging over me.
- O que você está falando? não consigo te escutar.

Oh, yesterday came suddenly.

Why 'he' had go I don't know.
'He' wouldn't say.

-Eu odeio todo mundo Mike.

I said something wrong now I long.
for yesterday.
Yesterday

O garoto traga profundamente e engasga. Passa o baseado.

Love was such an easy game to play.
Now i need a place to hide away.
Oh, i believe in yesterday!

Kurt ri enquanto canta. Suas mãos apertam o banco com mais força do que deveria.

Why 'he' had to go I don't know,
'He' wouldn't say!
I said, something wrong now I long!

Kurt gargalha.

For Yesterday!

- Está escurecendo brow, vamos pra casa? Para com isso Kurt, é sério.
Silêncio.
-Kurt?

Yesterday - ele recomeça baixo

Love was such an easy game to play - não consegue segurar, mas se esforça, precisa terminar a música - Now i need a place to hide away - seus olhos enchem d'água, suas mãos tremem vermelhas agarrando o banco - Oh, I believe...
Não consegue mais segurar. Cai de joelhos no chão e chora. 
Não tem mais uma família afinal.

Uma coruja pia e o dia se foi.

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